Carta do Canadá: Portugal desamparado
«Com
a lentidão meditativa a que obrigam as informações importantes, acabo
de ler uma obra de Marc Roche que, nestes tempos incertos de Pátria e
Europa, todos devíamos ler: O BANCO – Como o Goldman Sachs Dirige o Mundo.
Ficamos a saber que, de forma secreta, praticamente de seita,
laboriosamente, persistentemente, ao longo dos anos, o Banco Goldman
Sachs adquiriu a configuração de um polvo monstruoso, cujos tentáculos,
sob a forma de homens de mão, está infiltrado em toda a parte.
Objectivo: empobrecer países mal governados e passar o seu património
para o capital selvagem e sem pátria. Tudo isto o autor denuncia com
grande pormenor e acervo de provas.
Na União Europeia, os homens principais do Goldman Sachs são Mario
Draghi (presidente do BCE) e Mario Monti (primeiro ministro de Itália). O
autor descreve, ao pormenor, as golpadas do banco sobre a Grécia, com a
colaboração de governos da direita e da esquerda, para grande proveito e
regozijo dos banqueiros alemães.
Em Portugal, segundo Marc Roche, os tentáculos do Goldman Sachs são
António Borges, Carlos Moedas e, de forma sonsa, Victor Gaspar. Todos os
figurantes da coisa pública que com eles colaboram servilmente, são a
repetição gananciosa e sem escrúpulos dos que, em 1580, entregaram
Portugal à Espanha a troco de fortunas e títulos. Toda uma elite
negativa e traidora que,ontem como hoje, cabe no grito desesperado de
Almada-Negreiros: “maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames”.
Percebem-se agora claramente as privatizações ao desbarato em que o
actual governo se tem empenhado, com o precioso serviço dos nunca por
demais louvados Mexias, Catrogas, Montezes e quejandos. E é agora claro
o porquê das declarações de António Borges, primeiro a preconizar a
descida dos salários, depois a anunciar o desmantelamento da RTP e a
sua entrega a capitais privados que, para além de passarem a viver (à
grande) com subvenções milionárias pagas pelos contribuintes, teriam
inteira liberdade para despedir quantos funcionários quisessem. Ainda
por cima com o conforto de uma empresa que passou, com a administração
actual, a dar lucro.
A ausência de Relvas, grande mainato do capital obsceno, tem uma
leitura: percebeu que ninguém o quer ver, nem pintado. A atrapalhada
explicação de Aguiar Branco, como se um ministro da Defesa fosse chamado
para este assunto, quando o que lhe incumbe são submarinos, imersos ou
submersos num mar de cobardia, tem uma leitura: toda esta gentinha tem
vivido na maior impunidade, com a Justiça em cadeira de rodas, de boca
fechada e venda nos olhos. Fica de pernas bambas, essa gentinha, quando
percebe que o país não está completamente adormecido. Ainda reage ao
desaforo, para grande surpresa de um primeiro ministro a quem sobra em
pesporrência o que lhe falta em idoneidade.
Todos os países do primeiro mundo têm a sua televisão e rádio estadual
que, pelo facto de garantir o pluralismo informativo e o património
cultural colectivo, tem de ser subsidiada para não ficar sujeita à
chantagem do capital via publicidade. São meios de comunicação
prestigiados e respeitados. Todos os países do primeiro mundo têm por
garantido que o chefe do estado é obrigado a defender o país dos maus
governos. E em Portugal como é? Como tem sido? Um PR que se cala
quando deve falar, que fala quando deve estar calado, que na maior parte
dos casos diz banalidades ou defende o que nunca deveria defender.
Restamos nós, o povo. E somos muitos. É tempo de reflectir numa afirmação recente do jornalista Joaquim Letria: “Há mais do que motivos para a insurreição popular e intelectual”.»