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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O MUNDO DA BOATARIA

"O mundo da imprensa é um mundo da boataria", por Miguel Júdice.

Não há nada mais pungente do que ver almas aparentemente brilhantes a completarem o círculo e a retrocederem no índice do brilhantismo humano. O brilhantismo, produto do carisma humano não se mede na necessidade de afirmação e comparação constante face ao outro, no sucesso, no mediato, no autoapanágio humano. A simplicidade, o desmaterialismo, vive connosco no tempo em que de curvados endireitamos a vista e começamos a ver mais longe, dentro do nosso e dos corações dos outros.

Ao mundo, o que excede hoje em autocomprazimento pessoal, sobeja em desprendimento e simplicidade secular. Ao mundo o que sobeja hoje é um comunitarismo novo, não fundado em lutas de classes ou relações de conflito, mas na dialéctica do homem com o seu semelhante, dialéctica de afirmação da felicidade fundada no enobrecimento da irmandade da entreajuda.

O que é que isto tem a ver com a boataria? É esta a dialéctica dos homens novos, ou é assim que se constrói um melhor futuro?

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

VARINHA DE CONDÃO


Pudesse eu ter uma varinha de condão
e tudo o que nos incomoda,
e é excremento,
seriam definitivamente varridos da terra!

Pudesse eu ter uma varinha de condão
e esta criança,
nascida ao mesmo tempo que outros meninos,
menino ainda rosado e puro,
não se pareceria nunca mais
com aqueles meninos-velhos gordos,

sudentos e anafados,
que se realizam a semear a tristeza

entre os presentes,
com os seus grandes tridentes
em forma de grande

e reluzente cifrão
que tudo ceifa,
metendo o garfo em toda a seara!

Pudesse eu ter uma varinha de condão,
e decretaria que todo o novo homem
só se realizaria na solidariedade e amizade!

Pudesse eu ter uma varinha de condão,
que se sobrepusesse à varinha de mandão
do outro homem,que da solidariedade
só conhece a espada e o bastão,
a força e a ilusão
do seu desmando,

pudesse eu ter uma varinha de condão
e a fome, a violência, a corrupção e a guerra,
eram apenas formas de canção
em tom piano,
fininho, fininho,
até à extinção e explosão
num grande solfejo!

COMO SERIA ESTA CIDADE, LISBOA ... COM GENTE!



Olhar de forasteiro é sempre mais benevolente!

Mas, ao menos, podia viajar montado na minha bicicleta camarária, sem tropel ou atropelamento e com a doce ignorância do desconhecimento ... da miséria, do aproveitamento, da insensibilidade e da ganância!

A luz e o sol da nossa cidade, é verdade, é a nossa coroa e o nosso encantamento, mas reflecte tão mal na pobreza e no abandono de uma cidade nua, despida ou vestida de ... velha abandonada doente!

É Lisboa, uma cidade, ou apenas um ajuntamento à hora de almoço?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

E A VIDA AQUI TÃO PERTO

Mais um ida e regresso a uma melhor irmandade.

Barcelona estava quente, nestes idos de Outubro, mais quente que Lisboa! As praças e ruas cheias, os restaurantes e cafés nem tanto, as ruas quadriculadas e direitas decoradas de indígenas saracoteando nas "pasteleiras" do ajuntamento. Havia um ténue cheiro a crise, embora a cidade cheirasse a vida! Mas um cheiro leve, tão diferente da tristeza e do cheiro a injustiça do nosso ajuntamento!

Barcelona continua a ser uma cidade acolhedora, organismo vivo tão distante desta linda Lisboa, morta, sem vida, destruída por multitudes de homens e Gebalis que a crucificam, que a parasitam, que a sugam como vampiros.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

QUE REVIVA EM VIDA HERBERTO HELDER


O AMOR EM VISITA
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Herberto Helder

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A BOLHA! O LUGAR IDEAL PARA ESTAR DURANTE A CRISE DOS MERCADOS

Para nos protegermos da histeria dos mercados, das cólicas do estertor do capitalismo-materialismo-individual mundial.
A usar antes dele se levantar novamente e andar.
Eficaz, também ou igualmente, para nos protegermos dos agoiros dos projécteis das gaivotas.
E, lá ao longe, as marés vão e regressam!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

OS NOSSOS PROBLEMAS?
CHEGA DE EGOÍSMOS E DESUMANIDADE!

Já fui rico, agora estou pobre. Foi o desemprego e o caixote de lixo da história, foram as rugas, foi a segunda feira negra. Coçei a cabeça e olhei num arco de 360º e olhei ... olhei. Afinal já não estou tão pobre, mais pobres estão os agora ricos, que olham para mim e não me vêem: sou finalmente invisível!

Pobres são esses pobres ricos, sempre a calcorrear o umbigo, sempre a trepar o fosso que separa de outra elite, sempre a escavar o poço que os separa da Gentry, estes Earls acobardados e acastelados com medo da queda do seu Deus e da ascenção de nossa Senhora.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

HAPPIE DAYS HAPPIE DAYS



quarta-feira, 1 de outubro de 2008

PARAÍSOS POUCO DEMOCRÁTICOS

Eu gosto muito de ver e ouvir Vicente Jorge Silva. Porque é simpático, não leva a vida política muito a sério, enfim ... porque V.J.S., é ele mesmo!

Tudo a propósito da sua visita de ontem ao 5 canal em frente a frente, o canal de Mário Crespo e Ana Lourenço, e a sua propalada nostalgia pelo Porto Santo de antanho, frequentado até este ano por meia dúzia de pássaros de arribação, gaivotas colonos "cubanos sazonais"; ... «Que é o último ano, que é só construção, que é o fim do "seu" paraíso.»

Pois é, tudo o que é "massificação", abertura ao outro, fim de privilégio dói, mesmo aos mais ilustres socialistas jornalistas das nossas estações. Ser centrista, social-democrata, socialista, bloco-esquerdista, ou comunista ... tudo isso e elitista em Portugal ... não é fácil!

É por isso que gosto tanto da coerência de ... Odete Santos, a genuína!