Blog da nossa consciência, do n/ umbigo, da solidariedade, da ética, do egoísmo, da ganância, da corrupção, do faz de conta, do desinteresse, do marketing, das sondagens, da elite do poder, do poder dos sem poder, do abuso do poder, da miscigenação com o poder, da democracia participativa, do igualitarismo, dos interesses, do desprezo pelos excluídos...da política, da democracia de partidos e da classe política Portuguesa séc.XXI! A VOZ DA MAIORIA SILENCIOSA AO SERVIÇO DA CONSCIÊNCIA PÚBLICA!
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terça-feira, 13 de dezembro de 2011
QUE NADA O VENTO LEVE
terça-feira, 31 de março de 2009
HISTÓRIA SEMPRE CONTEMPORÂNEA DE PORTUGAL
Quando se fizer a história do fim do século, início do século Português, muito se rirão os contemporâneos. A história comparada, então, encontrará traços profundos na monarquia constitucional, como na 1ª república, como na 3ª república, onde os bons substituíram os maus da república Salazarenta e Marcelista, acrescentando-lhes os laivos costumeiros da partidocracia corrupta e corrumpível.
Os nomes, então, desfiarão um após outro já, no entanto, quase todos engalanados de comendas e ordens republicanas. Como ontem, onde se vêem os homens e não se vêem os comportamentos, o que ficará é um grande buraco negro e uma arreliadora inércia de um país imemorial e centenariamente em decadência: a decadência da corrupção e da falta da educação para o civismo e ética!
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
DE REGRESSO À TERRA?
Foi assim no Eire, mas foi assim também no "reino de Copenhaga", como foi assim na clara meia-noite dos lagos da Suécia, nas frondosas florestas de coníferas da Finlândia e nos fiordes da Noruega.
Há muito que nós, os Portugueses, escolhemos as nossas muralhas e os nossos castelos, as nossas vibrantes e despidas autoestradas, os nossos "colombos", os nossos elefantes brancos voltados para o Tejo. Há muito que estamos desprovidos das proporções e vivemos não para os homens e para as mulheres deste povo, mas para as nossas tristes ilusões.
E assim o nosso regresso como o de João Tordo , cava sempre mais profundo o nosso implexo de incomodidade, a nossa alienação da felicidade da terra!
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
PARA ACABAR O ANO:
UM SONHO DE UTOPIA!
UM SONHO DE UTOPIA!
Feliz, também, porque acabava de postar em blog meu (CausaVossa, 2008)[2], em forma de curta recensão, denominado (mudam-se os tempos, mantêm-se os vícios): “Ao ler More, Thomas, enunciar que uma sociedade estruturada hierarquicamente não pode constituir um commonwealth virtuoso já que em todas as hierarquias, são sempre os piores que ganham poder e o usam em benefício próprio … para além da existência das hierarquias encorajar o orgulho, que é o pior dos vícios, já que destrói todo o sentido de justiça e equidade, pergunto-me: afinal estamos assim tão perto de 1535?”. E não resisto à transcrição da continuação em forma de discurso directo, entre Thomas e uma incógnita figura, possível arquétipo dos tempos[3]: ”(T.M.) O orgulho é “tramado”[4], vicia e inebria, dá-nos uma falsa sensação de superioridade sobre os outros, de imparidade, tão inteiramente ignorante e mesquinho de gente fraca! (P.S.) Mas e as hierarquias? (T.M.) As hierarquias têm de ser hierarquias paritárias de verdadeira superioridade moral e humanitária! Tudo o resto não são hierarquias, são orgulho de poder em comprimido! (P.S.) Mas desconfio tanto dos moralistas! (T.M.) Desconfias, desconfias porque verdadeiramente só conheces...os falsos moralistas!”
Tão longe, embora ainda tão perto, que começamos a estar da Wergild e do comunitarismo “kinshipariano” Anglo-Saxónico, desta solidariedade na adversidade do mundo fechado e imóvel, espécie de confiança e segurança “intra-uterina”, quando se começa a questionar o course of the Sun, a moral philosophy, a nature of the good, a virtude, ou a “promover” o misticismo, a individualidade, o prazer e a felicidade humana ou tão simplesmente o calcorrear por caminhos mais distantes onde perpassam influências e texturas[5] anteriormente ausentes!
Tão longe, embora ainda tão perto, que começamos a estar do mundo geocêntrico, imobilista, tradicional, postuladamente hierarquizado, cosmológica e religiosamente “fadado” e alinhado, em algo que Giddens define como o mundo do pensamento “contra-factual”[6] (Faria, 1996, p. 122).
E o que dizer das condições de resistência ao potencial destruidor do mundo físico (Faria, 1996, p. 124) e a atitude, ainda iniciática é certo, mas mais activa do entendimento do risco e do reconhecimento e enfrentamento da sua existência?[7]
Um mundo onde as opções existenciais e racionais parecem querer tomar forma, sob o manto das novas descobertas geográficas, da difusão da imprensa, dos novos legados filológicos, astronómicos, geográficos – cartográficos, anatómicos[8] e linguísticos, um mundo optativo, afirmativo, corte epistemológico de um mundo passivo, fisicamente aristotélico e filosoficamente escolástico. Giordano Bruno, Képler, Leonardo, Galileu, Erasmo, fazem parte desse novo mundo, desse early modern, interessado, sonhador, dialéctico! Se o crescimento “silencioso da ciência começa a reformar praticamente a nossa mentalidade” (Faria, 1996, p. 239), não são o Renascimento, o Humanismo tout court e pedagógico, e a Reforma (ou as reformas! com a sua especificidade insular), mudança de agulha de uma nova epistemologia[9] existencial?
Casa de Wessex, Casa da Dinamarca, Casa da Dinamarca 1ª usurpação, Casa de Wessex 1ª Restauração, Casa da Dinamarca 2ª Usurpação, Casa de Wessex 2ª Restauração, Dinastia Normanda, Plantagenetas[10], nova deposição e a rosa vermelha da casa de Lancaster, a interposição da Rosa Branca da Casa de York, nova deposição da de Lancaster, novo regresso deposição da rosa de York e finalmente[11] as duas cores da rosa dos Tudor e Eduardo VIII, trono em 1509, 44º rei Inglês, “edificado” sobre a tutoria construtora e anti-clerical de John Skelton, senhor de soberania[12], contemporâneo das religiosas cisões e reflexões, do absolutismo real como forma de poder, do híbrido Anglicano, do descrédito do direito romano e da elevação do common law, bom ou mau leitor da obra de Maquiavel, Príncipe e viúvo, à força ou consentido, de pelo menos seis mártires mulheres, exaurador de súbditos[13], contemporâneo e conterrâneo de More e influenciado leitor, enviesado embora, do De officio regis de Wycliffe e do seu braço influenciador protestante e autonómico nacionalista, mas simultânea e socialmente ameaçador Lollardiano. O Book of Martyrs de John Foxe bem como a Supplication for the Beggars, pomo de discórdia entre dois estados, o povo e o clero, um congregatio fidelium, ameaça “por tabela” da autoridade real.
Se sobre as grandes alterações epistemológicas no que poderíamos chamar de período “Early Modern Changes”, parecem chegar as hipóteses explicativas do mix religião, ciência, mundovisão, difusão, recentremo-nos novamente na relevância de um dos actores, Thomas, e na sua Utopia, fruto e flor de outras reflexões do lugar de cada homem no mundo e da relação com os outros, ascensão do poder temporal em detrimento do espiritual, consolidação de Estados e relação de soberanias, naquilo que começa a tomar forma como a sociedade mundial, relação de soberanias tão do agrado de um actor reflector de outros espaços futuros, nosso, de seu nome Adriano Moreira!
Orgia literária, admirável e perigoso mundo novo[14] em dois volumes, respostas (a livro II, da sociedade perfeita) para as perguntas das interrogações – males ou inquietações discorridos no livro I, a De Optimo Reipublicae Statu deque Nova Insula Utopia, ou sobre o melhor estado de uma república ou sobre a nova ilha Utopia a 2 volumes, é resultado de uma espécie de ambiente - bolo alimentar dos múltiplos ingredientes supra aduzidos, aditados ou condimentados por um absolutismo tirano, em deriva, de uma sociedade aparentemente quase distópica[15] e dual em busca de definição religiosa própria, uma sociedade onde Thomas “passeia” o seu English Character, exercendo e exibindo com mestria a complexidade do seu contra-factual. Mas a reforma Henriquina foi demais para More: muito sob o signo do homónimo Thomas, Cromwell, reformation parliament, act of restraint of appeals, act for the submission of the Clergy, irreversibilidade da secularização do estado, Act in Restraint of Appeals to Rome e os fatídicos e finais actos constitucionais (para More) Act of Succession e Supremacy, abriu não só o cesto para a “saída” da Church of England, como encerrou pelo carrasco a cabeça de Saint Thomas More, amigo da virtude, inimigo da injustiça, da submissão do clero ou da desautorização do Papa ao rei.
Fica em conclusão e jeito final deste, para alguns, socialista avant la lettre, para outros tão só a afirmação dos ideais do humanismo cristão como orientador moral da conduta quotidiana, a utopia de uma organização política democrática, de uma sociedade ou orgânica social impoluta e partilhada, das críticas parcelares às enclosures, aos oligopólios, à rejeição da ética das razões de Estado, à virtude como única nobreza. Fica também, para si próprio, que Utopia é irrealizável nalguns pontos mas implementável noutros, ou parafraseando Mateus (na mensagem que passa várias vezes Hitlodeu – More) (Silva, 2000) “O que vos digo em voz baixa e ao ouvido, pregai-o em voz alta e abertamente”, sendo a seriedade das suas propostas retomadas no futuro por outros, na forma da New Atlantis de Francis Bacon, nas viagens de Gulliver de J. Swift, ou Robinson Crusoe de Defoe e na definição de novas ideologias. Last but not the least, o mundo caminha agora, assim, levado “ao colo” pela reflexão e materialização terrena de utopias de homens como Thomas More, por novas concepções sobre o universo e a natureza humana, pela descoberta de novos horizontes da ciência, do espaço, tempo e espaços geográficos, alicerçado em novas convicções religiosas, reflexões e coordenadas do lugar do homem e da sua relação com o mundo.
[1] Sonho: “Utopia”, espaço de nenhum lugar! O sonho a assumir a dimensão do verdadeiro e diário corte epistemológico com a realidade!
[2] Causavossa.blogspot.com, onde se procura “dissecar em camadas” o que é nosso!
[3] Racional descendente de Hitlodeu “o Luso”, onde abunda o hythlos e o daios, o oco e a esperteza, acompanhante de Vespúcio, Filósofo, viajante, humanista? … conhecedor das realidades humanas? … em “linha recta ou curva - torcida”? Crítica só da sociedade Inglesa?
[4] Termo alterado, por elegância, da minha postagem original.
[5] Termo feliz porque rima nesta passagem para a modernidade da vida humana com … delicadeza!
[6] O mundo do “contra factos não há argumentos”!
[7] Ou já não andasse Magalhães e Vespúcio, no tempo de More, a “cavalgar ondas” e a enfrentar os Adamastores; e ao comentário de More da distinção dos dois planos e do uso da razão “… to find governments wisely established and sensibly ruled is not so easy.” (Faria, 1996, p. 242)
[8] Excelente o nome da obra - atlas humano de Vesalius “De corporis humani fabrica”, fábrica de corpos e não de almas.
[9] Ou de um novo rumo ou atitude existencial mais activa, “global”, individual e centralizado.
[10] E a Carta “Grande”, Magna de seu nome, do Príncipe sem terra!
[11] Fazendo jus à máxima, “se não os podes vencer junta-te a eles!”.
[12] Esse poder que não reconhece igual na ordem interna ou superior na externa!
[13] Thomas More e Miladies à mistura, entre muitos outros!
[14] Admirável e elucidativo “o admirável comentário sobre Utopia” da autoria de Uiran Silva!
[15] Embora só com Stuart Mill o termo distópico seja usado, não seria o seu antónimo usado como um desejo reflexo de uma sociedade e de tempos perigosamente duais e claustrofóbicos?
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
IRRA, QUE É MAU!
«A Secretária do Sócrates era apaixonada por ele, mas ele não percebia. Um dia, depois do expediente, ela entrou na sala dele, com um vestido provocante, bem decotado, fechou a porta atrás de si, caminhou languidamente até à mesa, com ares de Monica Lewinski e propôs: - Sr. Primeiro-ministro, vamos fazer uma "maldade"? - Vamos! Onde é que eu assino?»
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
RESPOSTA A RECONSTRUÇÃO
domingo, 9 de novembro de 2008
DEFINIÇÃO DO POETA
Excelente Eloah,
a definição do poeta,
o poeta e o momento,
porque na poesia da vida
e na vida da poesia,
está a vida encarcerada
numa longa e funda escarpa,
onde só escapa...
alcandorada pela maresia,
a rainha das rainhas,
a nossa formidável ...
poesia!
E o que seria a vida,
mecânica, nua e trágica,
sem a mágica desse instante,
vida só, pobre e fria
descarregada de poesia?
E a rosa é o abraço,
um miminho da poesia,
ténue traço,
formidável e esparsa via,
desta insólita emérita raça,
provida da vida que cria!
Que a vida te continue a fluir,
desta única e bela forma,
porque o poeta é o momento,
com o poder do iluminar...
feliz forma de evangelizar
desprovidos e infelizes,
alegre e única forma
de caminhar desfrutando,
pelas praias da poesia,
semeando nossas raízes...
desta nossa curta,
mas feliz e trágica vida,
sempre em forma de despedida!
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
VARINHA DE CONDÃO

Pudesse eu ter uma varinha de condão
e tudo o que nos incomoda,
e é excremento,
seriam definitivamente varridos da terra!
Pudesse eu ter uma varinha de condão
e esta criança,
nascida ao mesmo tempo que outros meninos,
menino ainda rosado e puro,
não se pareceria nunca mais
com aqueles meninos-velhos gordos,
sudentos e anafados,
que se realizam a semear a tristeza
entre os presentes,
com os seus grandes tridentes
em forma de grande
e reluzente cifrão
que tudo ceifa,
metendo o garfo em toda a seara!
Pudesse eu ter uma varinha de condão,
e decretaria que todo o novo homem
só se realizaria na solidariedade e amizade!
Pudesse eu ter uma varinha de condão,
que se sobrepusesse à varinha de mandão
do outro homem,que da solidariedade
só conhece a espada e o bastão,
a força e a ilusão
do seu desmando,
pudesse eu ter uma varinha de condão
e a fome, a violência, a corrupção e a guerra,
eram apenas formas de canção
em tom piano,
fininho, fininho,
até à extinção e explosão
num grande solfejo!
COMO SERIA ESTA CIDADE, LISBOA ... COM GENTE!

Olhar de forasteiro é sempre mais benevolente!
Mas, ao menos, podia viajar montado na minha bicicleta camarária, sem tropel ou atropelamento e com a doce ignorância do desconhecimento ... da miséria, do aproveitamento, da insensibilidade e da ganância!
A luz e o sol da nossa cidade, é verdade, é a nossa coroa e o nosso encantamento, mas reflecte tão mal na pobreza e no abandono de uma cidade nua, despida ou vestida de ... velha abandonada doente!
É Lisboa, uma cidade, ou apenas um ajuntamento à hora de almoço?
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
QUE REVIVA EM VIDA HERBERTO HELDER

e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Herberto Helder
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
A BOLHA! O LUGAR IDEAL PARA ESTAR DURANTE A CRISE DOS MERCADOS
Para nos protegermos da histeria dos mercados, das cólicas do estertor do capitalismo-materialismo-individual mundial. segunda-feira, 6 de outubro de 2008
OS MOVIMENTOS NOVA ESPERANÇA
Hoje resolvi ir-me inscrever no novo partido M.E.P., movimento esperança Portugal. E porquê? Porque tudo parecia deliciosamente bom: a justiça, a ética, a verdade e a consequência, tudo era novo, a cheirar a cravos e rosas. Os novos compadres dão as mãos por um nova ilusão, estão frescos que nem umas alfaces, destilam vigor e mudança, cumprimentam-se e abraçam-se ainda com sorrisos e dádivas puras de crianças.sábado, 4 de outubro de 2008
HOMENAGEM A DINIS ... "MOLERO"
... que me desculpe Dinis Machado lá no étereo onde resiste, mas a minha homenagem é mais a Molero, o pobre "soundbit" do Lusitano Fado! «Há vida depois desta vida?
Há uma possível “vida - via electrónica participativa”, uma espécie de bionismo molecular, de bits electrónicos participativos, destronados os quarks, entronizados os bytes, padrinhos mais velhos dos bits, campeões democráticos mundiais: a discussão e o referendo "in situ" e on-line. A partir de agora, os bytes representam-te em cada pixel, pixel soldado democrático armado da baioneta electrónica molecular.»
... mas a ti não te bastam os bytes ou os soundbytes, aí onde resistes, relembras...
Pobre de quem é pobre, pobre de quem é rico. Nasce-se pobre e nasce-se rico, mas o rico não é mais que o pobre e o pobre mais que o rico. Ambos são ricos pobres e pobres ricos. Ambos são uma ilusão de palhaço pobre e de palhaço rico, ambos são a solidão natural do cosmos, a constelação do palhaço humano em órbita, atraídos pela igualdade, corpos humanos que se atraem e repelem. »Até sempre, Dinis ... alexandrino, marialva ... Dinis... Molero!
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO
Mas o problema vai mais além. De acordo com as mudanças introduzidas, a diversidade, riqueza principal da língua portuguesa, sairá terrivelmente prejudicada em favor de uma decisão governamental.
A ordem do dia por trás da reforma é "unificar" o português escrito no Brasil, em Portugal, na África e na Ásia, retirando-se, por exemplo, os acentos agudos em palavras como "jóia" e "idéia", além de aposentar o trema, o que transforma a grafia de palavras como "tranqüilo" semelhante a do espanhol. E isso tudo de uma penada, como quis fazer aquele deputado comunista que queria banir, por decreto, expressões estrangeiras da língua falada e escrita no Brasil (deveria começar pelo nome de seu partido, "comunista" - um evidente galicismo).Em vez de separados pela mesma língua, como disse certa vez George Bernard Shaw ao referir-se ao inglês falado nos dois lados do Atlântico, estaremos, a partir de agora, unidos compulsoriamente pela vontade de nossos governantes.
Que Lula tenha sido o firmante de semelhante aborto é algo bastante simbólico. O acordo ortográfico assinado ontem pelo Apedeuta, desconfio, seria rechaçado por Machado de Assis. Assim como a trajetória do ex-metalúrgico. Provavelmente, em vez de propor a Lula apor sua assinatura trêmula no texto do acordo, o velho Machado lhe recomendaria ler um livro. De preferência, de Gramática. Ou um tratado sobre Ética.»
terça-feira, 30 de setembro de 2008
POEMA A DUAS MÃOS
Quando chegar ao destino
o Pinho, e o Nunes larvar,
descarregam todo o tino
defecando neste lindo pomar.
Arre, arre, meu asninho,
que está-se o tempo a acabar,
o teu arruinado caminho
vou ter de ser eu a tapar.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
PORQUE A VIDA TAMBÉM SE FAZ COM POESIA, O ÚLTIMO POEMA DE ELOAH BORDA, APENAS UMA MULHER E POETA ... COM A DEVIDA VÉNIA
terça-feira, 23 de setembro de 2008
VERSÃO DA BROADWAY, MUITO, MUITO LIVRE DA NAU CATRINETA
"Lá vem a Nau Catrineta,
que tem muito que contar!
Ouvi - de, agora, senhores,
Uma história de pasmar."
Passava mais de três anos,
que iam na volta do mar.
Já não tinham que oferecer,
nem tão pouco que manjar.
Já abafaram o seu galo,
que tinham para cantar.
Já calaram o seu cão,
que tinham de intimidar.
Já não tinham que sacar,
nem tão pouco que oferecer.
Deitaram taxas em molho,
para logo outro dia morfar.
Mas a sola estava tão podre,
que a não puderam tragar.
Deitaram sortes ao fundo,
qual se havia de matar.
Logo a sorte foi cair
no fogoso general.
-"Sobe, sobe, povinho,
àquele mastro real,
vê se vês terras de Chávez,
Khadafi ou Eduardinho,
ou praias de Portugal."
- "Não vejo as riquezas
de Espanha, o Allgarve,
ou os Jardim de Portugal.
Vejo sete afiadas línguas,
que te querem fazer zarpar."
- "Acima, acima, gajeiro,
acima ao Cavaco real!
Olha se vês minhas terras,
ou reinos de Portugal."
- "Alvíssaras, senhor alvíssaras,
meu distante general!
Que eu já vejo
tuas martirizadas terras,
antigos reinos de Portugal.
Se não nos faltar o bom senso,
a terra iremos papar.
Lá vejo muitas torneiras,
financeiros a lavar;
vejo muito forno aceso,
de gente a se queimar,
padeiras a padejar,
e vejo muitos açougues,
e empregos a terminar.
Também vejo três meninas,
debaixo de um laranjal.
Uma sentada a esperar,
outra de roca a bater,
A mais formosa de todas,
ainda está no meio a crescer.
- "Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
a mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar."
- "A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar.
Que eu tenho mulher em França,
filhinhos de sustentar.
Quero a Nau Catrineta,
para nela navegar."
- "A Nau Catrineta, amigo,
essa eu não te posso dar;
assim que chegar a terra,
logo ela vai a votos queimar.
- "Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual."
- "Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a domar."
- "Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar"
- "Não quero o vosso dinheiro
Pois vos custou a ganhar.
Quero a Nau Catrineta,
para nela navegar.
Que assim como escapou desta,
doutra sempre há-de escapar"
Lá vai a Nau Catrineta,
leva muito por quem enganar.
Estava a noite a cair,
e ela em terra a mofar.
@ 2008, causavossa
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
PARA LÁ DO ACORDO ORTOGRÁFICO, A RENOVADA LARGUESA DA "NOSSA" ... LÍNGUA PORTUGUESA
Recebi de intemporal amiga,
uma preocupação sentida,
de enorme e irrecusável carinho,
sobre o sentido real,
de uma grande safadeza.
Do reto não é de certeza
que ao recto falta a leveza,
que a enorme tibieza,
remata num certo rectal.
Acordo ortográfico, ou sintáxico,
o que é?, não o conheço,
se até ao sentido gráfico,
foge-me a nota à Marsalhesa.
Querida amiga, é essa a graça,
a maleável riqueza
desta democrática massa,
que instrói ou reconstrói,
a nossa impoluta amada,
a armada Portuguesa.
Seja na mestiça América
ou na multicultural Europa,
seja na negra África
ou na amarelecida Ásia,
seja reto, ou seja recto,
seja broche ou seja ... oral!
Cara amiga ...
é essa a riqueza
da doce e maternal beleza,
desta democrática Portuguesa,
sem donos, ou igual.
Para além do acordo banal
ridicularizado pela imprensa,
a moldura e o pedestal,
são, para nós, instituída chateza,
de filólogos de quintal.
Deixe-se ao povo arguto,
a grandeza,
de tornear com clara leveza,
liberdade e toda a destreza,
o futuro da Portuguesa.
Despeço-me
com certeza e carinho,
da sua enorme benevolência,
rescaldo desta enorme indecência,
da minha impolida franqueza.
@ 2008 CausaVossa: a "casmurra maioria"!
domingo, 21 de setembro de 2008
VALHA AO MUNDO, O REMANSO, DA GENTE PURA E RECTA...(L)...!
que bom a ter encontrado
no sulco do meu quintal.
Sobra tão pouco retrato,
de gente pura e recta*,
que de mim aqui
lhe mando um abraço,
esperando a ver em minha casa,
não de sopetão ou remanso,
mas postando sem igual.
Assinando, para os amigos,
de meu nome,
@ 2008, CausaVossa
*alterado por uma minoria, dentro da maioria, por simpatia e sugestão, do anterior estado rectal, "um quase pubele da escrita", para um percurso mais recto e linear, quase de certeza de melhor gosto, de certeza de emendar a "casmurrana pena!"
sábado, 20 de setembro de 2008
RIMAS LIVRES COMO O VENTO
Se você não é poeta,
eu não sei o que poeta é!
Poeta não é fingimento,
nem dor que deveras sente,
poeta é um sentimento
que a gente sente o que é.
Cara Eloha,
poeta não é fingimento
é poeta quem a gente sente,
mesmo toda aquela gente,
que a gente só ao longe vê.
Fingimento é a outra gente
que vê o mundo diferente,
e que não vê no poeta
a dor que ele deveras sente!
@2008, causa vossa



