segunda-feira, 2 de abril de 2012

A EUROPA CAPTURADA PELA EUROPA DE CIMA?

«EUROPA CAPTURADA

"é tempo de parar de ouvir o que os bancos dizem e de começar a focar-nos no que eles fazem. Temos de reavaliar a economia política distorcida do sector financeiro antes que o seu excessivo poder imponha custos ainda maiores sobre toda a gente"

Assim termina o artigo - Captured Europe - publicado no Project Sindicate , e  traduzido no Negócios On line.

Os autores, Daron Acemoglu e Simon Johnson,  professores no MIT, são peremptórios nas conclusões: A Europa encontra-se capturada pela banca e essa captura criou e mantem as circunstâncias que levaram às situações dramáticas em que se encontram alguns estados membros da União Europeia. Vale a pena ler o artigo original no site do Project Sindicate sobretudo pelos comentários que está a suscitar.

Venho há muito tempo, quanto ao essencial da questão, a escrever o mesmo neste caderno de apontamentos: ou se mudam as circunstâncias que permitiram, e continuam a permitir, à banca actuar exclusivamente em função dos interesses protegidos (moral hazard) dos banqueiros e dos especuladores, ou o desequilíbrio congénito dos mercados financeiros acabará sempre fazer implodir uma parte ou a totalidade do sistema.

Mas o artigo é sobretudo pertinente neste momento porque, perante a implosão, surge a questão que em Portugal se tornou obsessiva a partir da altura em que o governo adoptou o jogo do faz-de-conta com o  beneplácito da troica: vamos precisar de reestruturar a dívida sim senhor mas por enquanto não queremos que se saiba.

Afirmam Daron Acemoglu e Simon Johnson: 

"A elite política da Europa – as pessoas que lançam as cartas a nível nacional e da Zona Euro – está em sérios apuros. A sua gestão levou a região para uma crise profunda, traindo todas as grandiosas promessas de unidade e prosperidade referidas aquando da criação do euro. A união monetária pode acabar por sobreviver mas, para milhões de pessoas, o euro já falhou nas suas missões de sustentar o crescimento e de assegurar a estabilidade. Como é que isto aconteceu?

(...)
Há uma maneira simples de lidar com o excesso de dívida: reduzir os pagamentos através de uma reestruturação da dívida. Muitas empresas conseguem renegociar as condições de financiamento com os seus credores – normalmente, através da extensão das maturidades das obrigações, permitindo-lhes pedir mais dinheiro emprestado para financiar novos e melhores projectos. Se a negociação não for alcançada de modo voluntário, as empresas norte-americanas podem recorrer ao Capítulo 11 do código das falências [Chapter 11], sob o qual um tribunal fiscaliza e aprova a reorganização do endividamento. Por isso, pensar-se-ia que o mesmo seria verdade tanto para as famílias norte-americanas como para os governos europeus em apuros. Mas a reestruturação da dívida tem sido muito reduzida e veio demasiado tarde. Porquê?

Em ambos os casos, o principal argumento para não remover o excesso de dívida vem dos banqueiros, que defendem que tal iria criar uma destruição nos mercados por duas razões. A primeira é a de que os bancos são credores primários, e os enormes prejuízos que enfrentariam em qualquer reestruturação iriam desencadear um efeito dominó, com ondas de pessimismo a elevar as taxas de juro implícitas e a arruinar as expectativas de quem pediu empréstimos. Em segundo lugar, os bancos também seriam prejudicados pelo facto de terem vendido seguros contra incumprimento – em forma de "credit-default swaps". Quando estes títulos fossem activados, os bancos iriam incorrer em prejuízos possivelmente muito mais prejudiciais.

No caso da Grécia, os banqueiros internacionais argumentaram durante muito tempo e com muita força que uma reestruturação à dívida iria criar um contágio em toda a Zona Euro – e talvez, até, além da região. E, mesmo assim, a Grécia não teve outra escolha a não ser reestruturar a dívida, cortando o valor dos créditos privados em cerca de 75% relativamente ao seu valor facial (embora ainda possa não ser suficiente para tornar sustentável o encargo com a dívida do país). Foi considerado como um "evento de crédito", razão pela qual os "credit-default swaps" foram exercidos: aqueles que garantiram seguros contra incumprimento tiveram de pagar.

Abriu-se a porta para todo o tipo de problemas? Não. Os bancos não foram à falência e não há sinais de dominós de desordem. Mas isso não se deveu ao facto de os bancos se terem preparado com aumentos ou reforços de capital. Pelo contrário, comparando com os prováveis prejuízos no futuro, os bancos europeus reforçaram relativamente pouco capital nos últimos tempos – e muito dele foi através de contabilidade criativa, mais do que através de uma verdadeira absorção de todas as perdas no capital próprio.

Talvez o risco de que a reestruturação da dívida da Grécia conduzisse a uma crise financeira tenha sido sempre mínimo, e se esperasse já a tranquilidade nos mercados. Mas, nesse caso, porquê todo este alarido?

A resposta deve ser óbvia neste momento: os grupos de interesse e a visão das elites políticas. Mesmo que o risco para o sistema financeiro fosse mínimo, o impacto sobre os bancos e os detentores de obrigações seria substancial. Estes perderiam milhões e muitos funcionários do sector financeiro ficariam sem emprego. Sem surpresas, os maiores banqueiros juntaram-se contra a reestruturação da dívida, tanto em privado como em público.

Por exemplo, o Instituto para as Finanças Internacionais, um proeminente grupo de pressão a favor dos grandes bancos, sedeado em Washington, nos EUA, defende consistentemente: resgatem-nos ou toda a gente vai sofrer as consequências. Mas, tão importante como o seu enredo é o seu poder político, que tem vindo a crescer bastante nos últimos anos – até ao ponto em que todos os grandes decisores políticos nos EUA e na Europa protegem as fortunas dos bancos mesmo quando estas não têm grandes implicações para a economia.

Mesmo neste momento, muitas das perdas que os banqueiros deveriam enfrentar estão a cargo do sector público, incluindo através de várias formas de apoio directo ou através das acções extraordinárias e arriscadas do Banco Central Europeu. A extensão dos subsídios neste sector é magnífica e, sob as actuais políticas, deve apenas aumentar ao longo do tempo – apoiando sobretudo, desse modo, os estilos de vida do 1% milionário da população de países muito ricos.

O incumprimento grego acabou por se tornar naquele proverbial cão que nunca morde. A lição para a Europa – e para os EUA – é clara: é tempo de parar de ouvir o que os bancos dizem e de começar a focar-nos no que eles fazem. Temos de reavaliar a economia política distorcida do sector financeiro antes que o seu excessivo poder imponha custos ainda maiores sobre toda a gente.

Daron Acemoglu é professor de Economia no MIT e co-autor de Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity and Poverty. http://whynationsfail.com/

Simon Johnson, professor na Sloan School of Management, do MIT, e membro do Peterson Institute for International Economics, é co-autor de White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why it Matters to You. http://whitehouseburning.com/
 
 
A ler com muita atenção e a devida vénia vindo do Aliás!

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