quarta-feira, 9 de junho de 2010

A IMPORTÂNCIA DA MOEDA ÚNICA FACE AO ACTUAL MOMENTO DOS MERCADOS FINANCEIROS INTERNACIONAIS: CRÓNICA DE UMA CRISE PERCEPCIONADA!

RESUMO
O presente faz uma abordagem dinâmica daquilo que Nicolau Santos, numa peça do Expresso, chamou de (Dias de cão e especulação, N. Santos, 2010), fazendo-nos perceber a importância da inserção numa zona monetária.
A “crónica” desta crise permite, assim, perceber a importância para um país, de se abrigar a um “chapéu - de - chuva” de uma moeda comum, bem como perceber a necessidade de coordenação de alguns instrumentos necessários para a estabilização e defesa dos países integrantes das zonas monetárias e da própria zona.

PALAVRAS - CHAVE
CD’s, Default, Dívida Soberana, Eurosistema, Eliot Sptizer, esquema Ponzi, FED, FMI, George Soros, Jean Claude Trichet, Junk Bonds, Myrdal, Notação Financeira, Nicolau Santos, Paul Krugman, PIIGS, Short selling, SMI, Stiglitz, Standard & Poors, União Monetária.

INTRODUÇÃO
Depois da maior crise financeira mundial e das sequentes ajudas aos mercados, que permitiram na Zona Euro alguma liberdade de incumprimento dos critérios do Pacto de Estabilidade e Crescimento que enquadram os países do Eurosistema, nomeadamente o critério do défice orçamental relativamente ao PIB, a excessiva fragilização de um país soberano, a Grécia - excessivo endividamento externo, necessidade de refinanciamento e efeitos conjugados da crise - despoletou uma resposta defensiva dos mercados, para alguns, desproporcionada, para outros, mas decididamente desestabilizadora. Principal e relativamente centrada nos países onde os mercados percepcionaram maiores desequilíbrios externos e endividamento, é afectado o mercado da dívida e os próprios mercados accionistas. Depois de muita instabilidade, especulação e resposta tardia, motivada por questões internas e pela própria má construção do edifício monetário Europeu, afectando sobremaneira o mercado da dívida e posteriormente o accionista de países como Grécia, Portugal, Espanha, tirando valor ao Euro e afectando em cadeia mais tarde o próprio mercado Americano - por receio de exposição - só a criação de um fundo de apoio e a exigência de disciplina financeira parece ter – por agora? - acalmado os mercados.

DESENVOLVIMENTO
A coincidência do actual contexto de crise, instabilidade, volatilidade dos mercados financeiros internacionais e do Sistema Monetário internacional em geral, primeiro teste à moeda única Europeia, permitiu percepcionar as fraquezas, pontos fortes, vantagens e desvantagens de pertencer a uma zona monetária. No prazo de elaboração deste trabalho, com o agudizar da crise soberana Grega e com a possibilidade do default da dívida soberana Grega, crise de confiança dos mercados nos seus fundamentais económicos e na sua capacidade de prover às dívidas, assistiu-se em poucos dias a um efeito bola de neve de grande instabilidade em toda a zona Euro – para uns fruto da manipulação dos mercados, para outros apenas uma resposta dos mercados às ameaças contidas na aparente incapacidade de resposta do pagamento da dívida por parte da Grécia, para outros ainda a deficiente construção da zona Euro.
A inquietação com o actual momento de volatilidade e ansiedade dos mercados financeiros mundiais, permitiu conjugar a vertente dos reflexos na economia da Eurolândia e da Portuguesa, visionando a especulação dos mercados - com alguma aparência do domínio do capitalismo da manipulação - dada a proliferação de instrumentos como os naked short selling (Credit Default Swap, 2010), numa época histórica que denota um enorme desligamento com o core inicial da banca, o velho conservador retalho, naquilo que F. Louçã e o insuspeito bilionário George Soros conjuntamente denominaram de “economia de casino.” No seu blog Córtex Frontal debitava Medeiros Ferreira nos primeiros dias da crise: “Começa a circular uma nova ideia para acalmar os mercados e, sobretudo, para contrariar os movimentos especulativos em relação às dívidas soberanas da Grécia e de outros países como Portugal: suspender durante um ano, ou dois, o pagamento do serviço dessas dívidas. O ovo de Colombo? Ou ninguém quer ir para a Índia por aí?” (Moratória contra a especulacao, 2010). A especulação dos mercados ou apenas a sua inquietação face à moeda única e à putativa incapacidade de cumprimento de pagamento de dívida soberana de alguns Estados Membros, seja a Grécia, seja Portugal ou outros PIIGS, descendentemente notados por agências financeiras, como a Standard & Poor’s, de quase Junk Bonds – e onde segundo (Porfírio, 2001, p. 177) a vulnerabilidade, a especulação e o putativo default andam de mãos dadas. A lentidão da resposta agravou rapidamente a instabilidade dos mercados, afectando não só o mercado da dívida como os mercados accionistas, dada a brutal interdependência, hoje, de devedores e credores. O anúncio da conferência de imprensa que reuniu o Presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, e o director do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Berlim, acalmou momentaneamente os mercados, sem no entanto deixar de causar outras perplexidades, como a falta de solidariedade em tempo da locomotiva Alemã - ortodoxia financeira Alemã e nostalgia pelo marco forte soberano? - resultante dos tacticismos políticos electivos da Srª Merkel. Como não céptico do original processo de construção Europeia, onde palavras como solidariedade e directório deveriam ser excludentes, recordo-me de ter enunciado esta perplexidade: “mas que Europa é esta que fala agora pela voz do ministro das finanças alemão?”. Mas, observadas bem as coisas e analisados os comentários às três últimas peças do “consciente liberal” Paul Krugman – “A crise da coesão”, “É o Euro reversível?” e “A armadilha do Euro” - será que a conjunção de factores não esconde fraquezas inerentes à própria construção das União Monetária?
A primeira grande provação para alguns países que fazem parte do Eurosistema parece seguir assim uma ordenação, um ranking de risco país, onde estão presentes o risco financeiro, económico e político e onde estes dois últimos parecem sobrelevar o financeiro. Se a Grécia, se encontra por “culpa” própria da sua inconsistência e inconsciência estatística, mas também pela “atribuição de notas” das agências de notação , sob forte ataque dos mercados, a extensão a Portugal incorpora já na justificação da Standard & Poor’s, a debilidade sentida de uma economia há dez anos anémica – e sem fim à vista . Para os economistas este é o paradoxo dos nossos dias, o paradoxo da revitalização do crescimento com a do combate ao défice. Isto para já não falar das ajudas às economias que num repente revertem - da necessidade ingente das ajudas às economias - fazendo soar as campainhas do regresso à ortodoxia financeira da contracção do défice aos 3% do PEC. Numa economia demasiado dependente do Estado, e com o dado político da desunião interna, a conjugação dos factores deixa a soberania a jeito para “ataques” dos mercados, focados ou por intermédio. Ponto de vista que parece conforme ao de Paul Krugman, que desconfia não só das agências de notação, todas Americanas, que não só não previram a toxicidade de muitos dos novos instrumentos financeiros. É interessante verificar como Porfírio no “nosso” manual (Finanças Internacionais, Porfírio, 2001, p. 49), ao tempo da finalização da terceira fase da UEM e da introdução do Euro, se ficava pelas boas intenções e previsões , de uma moeda forte e estável, “disputando inclusive a hegemonia do Dólar”. Já nessa altura aquando da fixação das taxas de conversão irrevogável, o Dracma Grego, em incumprimento dos critérios, e em “processo de quarentena”, demonstrava a inconsistência do rigor e disciplina que tanto temia o forte Marco Alemão. É verdade, também, que Porfírio não poderia antecipar, não só, que o desenvolvimento dos mercados financeiros e de crédito se desenvolveram de forma geométrica e pronunciada mas também menos avisada – ver a actual suspeita contra a Gooldman, os instrumentos tóxicos como o esquema Ponzi - de (Charles) Ponzi - multiplicação tipo Pirâmide e de que Madoff foi discípulo , com a ajuda da desatenção das autoridades monetárias Americanas - e em geral por esse mundo fora – e com o que alguns acreditam ser o concubinato menos próprio de alguma banca – nomeadamente a banca de investimento , bem como a falta de rigor e atenção de algumas autoridades monetárias nacionais para o crescente endividamento de alguns países. Nem podia antever como a solidariedade propalada, e a resposta que se queria rápida na União, podia esbater-se e confrontar-se com fenómenos eleitorais de soberanias . Nem a propósito Nicolau Santos é muito claro na sua peça (Dias de cão e especulação, Santos, 2010) ao afirmar a paranóia da ortodoxia financeira que até há pouco recomendava os apoios financeiros quando esteve em causa o sistema financeiro e que numa volta de cão de 360 graus exige agora os défices próximos do zero. Aliás é interessantíssimo ler esta peça sobre crescimento e défice na Alemanha (Alemanha prevê crescimento de 1,2% e défice nos 6% este ano, Lusa, 2010) e o debate interno do momento, que nos dá uma noção exacta de como as contradições no seio das democracias pode eventualmente ser muito mais responsável pela volatilidade dos mercados, do que défices que tentam harmonizar finanças com economia, défices com crescimento e posteriores equilíbrios. A esse título o acordo Grego, poderá ter um efeito contrário e de pouca duração ao pretendido, dado que o acordo implicará um profundo retrocesso económico a prazo curto da economia Grega. Neste compósito de causas, onde também obviamente não deverá faltar a actual “força” dos mercados, fala-se também no global e manipulável mercado da informação do pouco interesse Americano numa moeda Europeia cada vez mais forte – o Euro como moeda de pagamento a nível internacional - pondo em perigo o Dólar como moeda internacional e as possíveis consequências numa economia sobreendividada como a Americana. As consequências negativas nos mercados de acções norte-americanos não parecem no entanto concluir tal teoria da conspiração. Causa final para o clima macroeconómico saudável que se pretendia ao nível de toda a EU, o “próprio edifício” Europeu que ao integrar algumas políticas, não comunitarizando outras como a fiscal e a orçamental, sendo exíguo no capítulo da coesão – e no seu minimalista orçamento - polarizando sem solidariedade aquilo que Myrdal, em economia regional - denominava da causalidade circular e cumulativa. Aliás muito da inteligentsia económica Americana, pelo que me foi dado ver da leitura de Krugman, Stiglitz, Roubini, consideram a zona Euro uma zona de polarização criadora de maiores desigualdades, um enorme espaço mercado interno que beneficia as grandes economias exportadoras em detrimento das nações frágeis e periféricas, que funcionam apenas como zonas de consumo interno. Alguns pontos de vista parecem sobressair: o dos liberais Americanos que se parecem confundir com o mainstream e os Mercados, o dos Eurocépticos Ortodoxos e os Europeístas convictos, que assistiram com frustração à enorme contradição inicial do estatuído nos tratados fundadores da construção Europeia: o princípio da solidariedade, a insuficiência de instrumentos de controlo e regulação, a assunção do Directório e a falta de políticos Europeístas como Jacques Delors.
CONCLUSÃO
Este período conturbado é, assim, magistral na observação da importância da moeda única Europeia face ao actual momento dos mercados financeiros internacionais. Porque permite visualizar o que teria sido o percurso – descendente - do Dracma ou do escudo na actual percepção dos mercados com a dívida soberana de Grécia ou Portugal ao contrário da resiliência do Euro e da sua mão tardia mas “calmante” dos mercados. Não é obviamente fácil encontrar um mínimo denominador comum neste ataque continuado à Grécia, e mais limitado a Portugal e Espanha. Porfírio, (F.Internacionais, Porfírio, 2001, p. 190), fala no consenso relativamente a factores como os elevados níveis de inflação, o endividamento externo, o défice comercial, os défices orçamentais, a incerteza, como factores de clara fraqueza de uma moeda. Alguns Estados integrantes da zona Euro puseram-se a jeito neste ataque que mais pareceu ao Euro, entroncando nas duas proposições desta semi - teoria enunciada por Nicolau Santos - nos seus “Dias de cão e especulação”: “…atacada por uma conjugação de interesses anglo-saxónicos amalgamada entre os que querem que o euro impluda e os fundos de investimento de risco, que pretendem ganhar muito dinheiro à custa da desgraça dos outros”, complementada por este artigo de Eliot Spitzer, “The Goldman Casino. Do investment banks do anything that helps America anymore?”, e das suas sete questões enunciadas e lançadas ao FED e ao Senado Americano.
Assim, podemos concluir da maior resiliência e estabilidade das moedas numa União Monetária quando contidamente cumpridos os critérios dos Pactos de Estabilidade e Crescimento, e da necessidade de criação de mecanismos de intervenção, como um fundo monetário Europeu solidário para ocorrer a emergências bem como maior integração de alguns elementos comuns de política - fiscal, orçamental… e mais fortes instrumentos regulatórios e de controlo, das faixas estreitas onde se têm de harmonizar as diferentes “regiões - países”, desta União Monetária que dá pelo nome de Euro.

Bibliografia
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2 comentários:

ricardo disse...

Bastava o autor publicar as últimas 5 linhas, para se perceber a sua opinião.
Tudo o resto é "palha", mistura conceitos com opiniões e citações de autores, jornalistas(!) e políticos.
Depois da "douta" dissertação, chega a uma conclusão óbvia desde o início.
Sabe pouco do que fala e mostra pela conclusão que julga ter descoberto a pólvora.
Revela sobretudo pouco saber e muita prosápia.

O Raio disse...

O que se sabe é que todas as previsões feitas pelos euro-entusiastas da nossa entrada no Euro, dez anos depois, falharam!
Nos nos venham agora dizer que sem Euro teria sido pior...

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